Autoria de: Wanderlânia de Cássia Oliveira – 14/01/2008
Eliana tirou as compras do porta-malas do carro e olhou desanimada para o elevador da garagem. Detestava ter de subir para o apartamento com as mãos carregadas de sacolas, mas se fosse esperar o mercado entregar não ia dar tempo de preparar o jantar para sua amiga Carla, que não via desde o final do seu trágico romance com Marcos. Após entrar e colocar as sacolas sobre a bancada na cozinha, observou o envelope negro no chão, perto da porta de serviço. Curiosa, pegou-o. O envelope não era muito comum. Além da cor inusitada, o papel tinha uma textura delicada, porém firme. Olhou dos dois lados e não havia nenhuma indicação de quem o enviara, mas resolveu abrir para ver o que era. Facilmente o lacre que prendia a ponta do envelope se soltou, e dentro havia um convite, também negro, parecido com convites de casamento tradicionais. É claro que não poderia ser isso, pois ninguém faria um convite de casamento naquela cor! Com a curiosidade aumentada Eliana se pôs a ler o impresso.
No topo, seu nome escrito em letras bem desenhadas deixava claro que não havia nenhuma confusão. Era realmente para ela aquele estranho convite. Sem muitos detalhes, informava um endereço nos arredores da cidade, uma área conhecida pelos condomínios fechados de luxo que abrigava, e pedia seu comparecimento a uma festa para convidados selecionados. Ainda mais intrigada, já que não conhecia ninguém naquela região, pensou que pudesse ser alguma brincadeira. O convite estava assinado apenas por “S”...
A campainha do telefone assustou Eliana, que largando o convite sobre a mesa da cozinha correu para atender.
- Oi, Eliana. Sou eu, Carla!
- Oi! Menina, você me deu um baita susto! Eu estava distraída vendo um convite estranho que recebi quando o telefone tocou.
- Desculpe! Liguei para confirmar o jantar de hoje, tudo ok?
- Tudo, claro! Vou estar te esperando às oito.
- Me fala do tal convite...
- Ah! Deixa pra lá! Quando você chegar eu te mostro... – Despediram-se e Eliana foi começar os preparativos para o jantar. Já era mesmo hora de voltar a ter convívio social, depois de tudo que aconteceu entre ela e Marcos. Fazia um bom tempo que se isolara, sentindo-se culpada.
Quando a carne já estava no forno e Eliana acabou de lavar a louça, decidiu ir tomar um banho, enquanto ainda dava tempo. Pegou o convite sobre a mesa e deu mais uma olhada. - “Depois vou ver com o porteiro quem deixou isso lá ou se foi alguém do prédio mesmo que pôs embaixo da minha porta esse convite...” – Levou-o para o quarto e pegou uma toalha.
Carla chegou pontualmente, Eliana já estava ajeitando os talheres na mesa quando o interfone tocou.
- Pode subir! – disse animada, indo em seguida esperar sua amiga em frente ao elevador.
Em instantes Carla chegou, cumprimentaram-se e foram para o apartamento.
- Hum! Que cheiro bom!
- É só uma coisinha que fiz rápido... Não repare...
Jantaram, conversaram sobre trabalho, amigos, o tempo que ficaram sem se ver... Carla educadamente evitava falar sobre Marcos, sabendo que o assunto não seria agradável para Eliana. Num certo momento perguntou:
- E o tal convite estranho?
- Espera um pouco que vou pegar para te mostrar. – Eliana foi até o quarto e pegou o envelope, entregando-o nas mãos de Carla.
- Realmente é um convite bem estranho! Mas não deve ser uma festa qualquer, né amiga!?
- Quer ir comigo?
- De jeito nenhum! Uma festa desse tipo, com um convite tão chique! Nem fica bem levar vice-convidados, Eliana!
- Não sei se devo ir...
- Claro que deve! Depois de tanto tempo enclausurada como uma freira nesse apartamento você tem mais é que voltar a viver! E começar a fazer isso em grande estilo, você merece...
- Não sei não... – O assunto estava chegando muito perto do fim da relação dela com Marcos. Carla notou e mudou o rumo da conversa, falando de amigos, do tempo de escola, de situações que engraçadas que passaram juntas... Quando se despediram, Carla fez Eliana prometer que na semana seguinte se veriam de novo e ela contaria tudo sobre a tal festa.
No sábado, Eliana se arrumou toda para ir à festa misteriosa. Comprara um vestidinho curto e discreto que certamente não faria feio em ambiente algum. Pegou o convite, a bolsa, suas chaves e saiu.
Às 20:30hs ela estava na estrada que dava acesso à região de chácaras, já bem perto do endereço informado no convite. Achou que não ficaria bem chegar muito cedo, por isso preferiu sair num horário que permitiria estar lá quando outros convidados já estivessem no local. Estranhamente o rádio do carro começou a falhar, perdendo a sintonia e emitindo um chiado esquisito. O certo seria ter desligado o rádio, mas Eliana gostava da música que estava tocando e tentou sintonizar novamente a estação. Foi quando aconteceu. De repente um vulto cruzou na frente do carro e o susto a fez perder a direção e sair da estrada, indo direto até uma árvore no matagal à sua direita.
Um pouco atordoada por causa da pancada na árvore ela demorou a perceber o que aconteceu. Não sabia se foi uma coruja ou um morcego que passou em frente ao para-brisa do carro, o fato é que agora estava sozinha naquela estrada e o carro ficou inutilizado, soltando fumaça entre as ferragens do que tinha sido a frente. Apenas um dos faróis estava aceso, o outro foi destroçado de encontro ao tronco da árvore. Ela saiu cambaleando do carro e viu que por sorte não tinha sofrido nenhum arranhão. A bolsa, que guardara no porta-luvas do carro, estava inacessível, senão poderia ter pegado o celular e tentado ligar para alguém, pedindo ajuda. Então ela notou uma placa em forma de seta indicando uma estradinha lateral, provavelmente na direção da festa. A placa, fracamente iluminada pelo farol que ainda funcionava, tinha apenas um símbolo gravado: o mesmo que aparecia no convite negro que a levara até ali. Decidiu seguir em frente, afinal na casa certamente poderia conseguir ajuda ou ligar para alguém. Poucos minutos depois já dava para ouvir o som da música e ver a casa iluminada no fim da estradinha. Ao chegar, Eliana foi recebida por dois homens, provavelmente da segurança do local, e tentou explicar o que tinha acontecido. O grande portão de ferro deixava ver um jardim belíssimo, ricamente decorado e iluminado. Os seguranças foram muito educados e permitiram sua entrada depois de confirmarem em uma lista o seu nome. Disseram que não precisaria se preocupar, providenciariam para que alguém fosse ver o carro e que poderia aproveitar tranqüila a festa. Após passar pelo portão, pode ver melhor o lugar. A casa em estilo vitoriano, ricamente trabalhada em cada detalhe, era difícil de descrever. “É uma pena que não estou com o celular para fotografar esse lugar” – pensou, enquanto seguia pela alameda que dava acesso a uma grande varanda na entrada da casa. Entre os arbustos do jardim vários outros convidados a observavam quando passava, acenando e erguendo taças de champanhe. Mesmo não reconhecendo ninguém ali, achou simpático que se comportassem como se ela fosse do grupo. A música vinha da casa mas parecia estar espalhada em caixa de som distribuídas no jardim, por todo lado pessoas riam e se divertiam. Ao entrar na varanda ela pode ver o salão principal, decorado como um palácio. Por todo lado haviam mesas com petiscos que pareciam deliciosos, baldes de gelo com garrafas de champanhe e ainda mais gente sorridente e receptiva. Eliana estava encantada com o lugar! Parecia estar num sonho. O mais estranho era não ter visto um conhecido sequer até o momento, mas isso parecia estar para ser solucionado. Um garçom lhe estendeu uma bandeja com uma taça de cristal delicadíssima, cheia até a borda de um champanhe de tom dourado e borbulhante.
- A hostess da festa gostaria de falar com a senhorita. – com um gesto o garçom indicou uma mesa ao fundo onde estava uma jovem loura num vestido longo vermelho, infelizmente de costas para Eliane, que agradeceu ao garçom e se dirigiu para lá.
A poucos passos da mulher, Eliana, curiosa, não conseguia ainda identificá-la. Quando ela se virou o choque foi inevitável. Era Sílvia, a mulher de Marcos! Todo o salão de repente girou em volta de Eliana, exceto o sorriso irônico de Silvía, que lhe ergueu a taça que tinha na mão em um brinde. – “Bem vinda, Eliana. Finalmente a festa vai começar de verdade!” – As pernas de Eliana bambearam, mas num esforço ela tentou se virar em direção à porta. Aquela mulher não poderia estar ali! Ela morrera há meses! Num relance, toda a tragédia envolvendo ela e Marcos voltou a sua mente. Apaixonada, ela descobriu depois de um bom tempo que Marcos era casado, mas não queria perdê-lo. Sílvia descobriu tudo e foi procurar Eliane, para que deixasse seu marido. As duas discutiram feio e Sílvia, muito alterada, lhe dera um tapa no rosto, dizendo que ela ia se arrepender de tentar tirar Marcos dela. Saiu enlouquecida do hall do prédio de Eliana, que imediatamente ligou para Marcos. Trêmula pela vergonha por que passara, ainda não tinha conseguido discar o número quando o estrondo de um acidente a fez correr para a entrada do edifício. Foi tudo muito rápido, o carro de Sílvia todo retorcido sob o ônibus, a voz de Marcos acusando-a pouca depois... Foi horrível, traumático!
Agora essa situação insólita. Sílvia não se movera do lugar, apenas sorria para ela. Eliana correu para a porta, mas tudo estava mudando rápido demais. As luzes se esmaeciam, os convidados revelavam rostos macilentos, alguns descarnados. As mulheres em vestidos belíssimos de repente estavam em farrapos, os cabelos desgrenhados. Gritando Eliana tentou chegar até o portão, mas quanto mais corria mais distante o grande portão de ferro ficava dela. Desesperada, olhou novamente para Sílvia, a única que se mantinha inalterada no meio daquele pesadelo.
- Desista Eliana! – ela disse autoritária. – Você não poderá sair daqui, eu preparei essa festa especialmente para você. É a melhor festa que já produzi, e vai durar uma eternidade para você, minha cara, então aproveite! Eu certamente estou gostando muito de te atormentar aqui!
O telefone de Carla tocou no meio da madrugada e uma voz desconhecida de homem se desculpou do outro lado.
- A senhorita me desculpe, mas preciso saber se conhece uma jovem de nome Eliana de Almeida Santos.
- Quem está falando? O que tem a Eliana?
- Sou policial, senhorita. Sua amiga sofreu um acidente de carro e foi levada para um hospital aqui perto, mas como o local do acidente era muito isolado e o resgate demorou um pouco, ela infelizmente não resistiu. Encontramos seu telefone num papel na bolsa dela...
Durante o velório de Eliana, Carla estava inconsolável. Cresceram juntas, Eliana era como uma irmã para ela. Pouco antes do enterro, Marcos chegou no cemitério trazendo uma coroa de flores. Ele sabia que Carla gostava muito de Eliana e se aproximou, oferecendo-lhe um café. Saíram dali e conversaram um pouco. Marcos estava muito deprimido com o que acontecera. Queria procurar Eliana e reatar o romance, mas não sabia como se aproximar novamente depois da morte trágica de Sílvia e das atrocidades que disse para Eliana por causa disso.
- Ela estava se recuperando do trauma, mas acho que não voltaria para você, de qualquer modo. Nós conversamos semana passada e ela estava bem melhor coitada! Até encorajei-a a ir naquela festa no sábado. Se eu soubesse que poderia acontecer isso...
- Festa? Ela estava indo a uma festa? Que coincidência estranha...
- Coincidência? O que você quer dizer?...
- Eu também recebi um convite para uma festa no sábado! Um convite estranho, todo negro... Só não fui porque ele me fez lembrar de Sílvia. Ela preparava festas, lembra-se?
- Um convite negro? Foi um desses que Eliana recebeu! Posso vê-lo?
- Claro! Está no meu carro.
Resolveram ir ver o lugar da tal festa estranha logo depois do enterro de Eliana. O local citado no convite não era muito longe. Ao passarem pelo lugar do acidente, viram as marcas no tronco da grande árvore, logo depois a estradinha lateral indicada no convite era bem visível na luz do dia, e tinha a tabuleta com o símbolo estranho do convite. A casa ficava no final da estradinha, mas se não fosse o matagal, poderia até ser vista da estrada principal. Apesar do estado deplorável em que se encontrava, via-se que foi uma residência imponente. Um grande portão enferrujado guarnecia a entrada da alameda principal, já quase tomada pelo mato. Talvez um belo jardim tenha existido ali, mas restavam apenas galhas secas e pedras espalhadas pelo terreno. Uma visão realmente triste, aquela grande mansão abandonada, certamente, há décadas...
Autoria de: Wanderlânia de Cássia Oliveira – 14/01/2008
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