
O aquecimento global aumenta a cada dia e o ser humano precisa tratar deste assunto o mais rápido possível, um assunto que precisa muito ser levado a sério.
Só não sabíamos que seria levado tão a sério...

Parte 1
Um trovão surge em uma bela tarde de sol de inverno. Pouco a pouco o céu que estava azul como o mar, foi se fechando. Não com a velocidade com que minutos antes o trovão havia surgido e sim lentamente. As nuvens pareciam acompanhar a falência do sol que agora parecia sufocado por elas, negras e sombrias.
Christian, um jovem que tinha um bom emprego, já arrumava as coisas em seu trabalho para ir embora enganado pelo dia que escurecia rapidamente, quando percebeu que ainda faltavam alguns minutos para as cinco horas da tarde. Retirando novamente de sua gaveta alguns documentos que haviam sido guardados para sua partida. Achou muito estranho aquele tempo, pois minutos antes havia deixado sua sala e mesa toda bagunçada para tomar uma água a fim de refrescar a cabeça de todo o estresse do dia, observou o sol alaranjado como fogo, mesmo fazendo muito frio. Olhou atentamente para ele se despedindo, e a nuvens negras tomando conta de todo o céu, pareciam apenas respeitá-lo em seus últimos minutos de glória.
- Sim – Pensava ele consigo mesmo, que aquela escuridão seria eterna...
Chegando a sua casa foi direto para o banho, aquele dia em especial resolveu usar a banheira que desde o inverno passado só via água quando sua empregada a lavava todas as sextas feiras. O fato de ele usar novamente a banheira indicava que realmente o inverno havia chegado, pois Christian a usa freqüentemente nesta época do ano.
Pouco mais de uma hora a água já começava a esfriar, Christian estava quase adormecendo quando, como na mesma tarde ensolarada, um segundo trovão o desperta, este, um pouco mais demorado que o primeiro. Ele se levanta assustado e com suas mãos enrugadas como as de um velho, pega a toalha e se enxuga rapidamente. Como de costume, sempre quando está se vestindo liga a televisão para assistir ao noticiário, neste dia em especial sua emissora preferida que era a primeira a aparecer quando ligava seu aparelho estava fora do ar, fazendo-o resmungar alguns palavrões. Sua surpresa foi que, quando ao trocar os canais, todas as outras emissoras também estavam fora do ar. Preferiu deixar de lado o noticiário e colocou um DVD do Black Sabbath, este funcionando perfeitamente e acalmando seus ânimos.
Sentiu falta de sua ex-mulher que hoje com vinte e oito anos, quatro a menos que o seu, deixava a janta prontinha sempre quando saia do banho, mas isso logo passava quando lembrava de como ela era descontrolada e que sua vida fluía muito melhor sem sua companhia. Sentado no canto de sua cama comendo os filés de frango mal fritos devido a sua inexperiência em culinária, assistia ao show que colocara quando ainda se trocava na saída do banho.
Antes de se deitar, desligou o DVD e experimentou novamente trocar os canais do televisor, visualizando somente os chuviscos do aparelho, visualizou formas estranhas, rostos deformados que sumiam quando ele piscava.
- Meu Deus, como estou estressado.
Achou melhor se deitar, para aliviar a canseira do dia de trabalho, como estava muito frio, resolveu voltar para a banheira e passar a noite ali dentro da água quase fervendo como não fazia a muito tempo. Ligou a hidromassagem com os jatos diretamente em seus pés e deixou o banheiro como uma sauna. Lembrou-se dos trovões que ouviu do final da tarde até pouco antes de sair do banho, fazia perguntas para si mesmo de onde estava a chuva? Com certeza não iria lá fora ver como estava o tempo, repousou então sua cabeça no encosto de fibra da banheira. No restante da noite não se ouviu mais nada a não ser o ruído do motor da hidromassagem, nem mesmo o assobio do vento lá fora, pois não existia vento algum. Apenas à noite, calada e fria.
* * *

Parte 2
Oito e vinte e quatro da manhã, Christian estava atrasado novamente e isso sempre acontecia depois de um dia de trabalho turbulento como o anterior. Levantou-se rapidamente da banheira, sua pele parecia se soltar de seu corpo como se tivesse ficado vários dias embaixo da água.
- Falta de costume – Pensava ele sozinho enquanto se enxugava.
Pegou seu telefone a fim de ligar para a empresa que trabalhava e avisar seu desfalque durante a primeira hora do dia. O telefone estava mudo e isso já foi o suficiente para que toda a paz que teve durante a noite de sono se perdesse. Apertou várias vezes o botão de liga e desliga de seu aparelho sem fio para conseguir um sinal de linha, mas nada acontecia, nem mesmo ruídos de estática do aparelho. Relembrou da noite passada onde os canais das emissoras de TV mostravam apenas estática e voltou a ligá-la. Nada mudou, todos os canais mostravam a mesma programação de chuviscos acinzentados, experimentou ligar o rádio como ultima forma de esquecer de que algo estava errado, este aparelho não era diferente, emitia apenas ruídos enquanto seus letreiros digitais corriam e retornavam ao início sem sucesso em encontrar qualquer emissora.
Christian não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que de fato algo estava errado, sabia que todos os meios de comunicação estavam inoperantes onde a única coisa que não faltava era a energia elétrica.
Sentado a cabeceira de sua cama, esfregando as mãos nos olhos para que sua sonolência fosse embora, olhou em direção de sua porta de madeira que dava para sacada, notou então que o dia estava mais escuro do que todos os outros, a pouca claridade que passa através dos pequenos furos para que haja circulação de ar estavam apagadas indicando que não havia luminosidade na parte de fora. Imaginou que seu radio relógio na cabeceira da cama estava com o horário errado e ainda fosse noite.
- Deve ter acabado a energia durante a noite – Falava ele sozinho. Pegou então seu relógio de pulso que estava do outro lado da cabeceira e se assustou como uma criança curiosa ao levar um choque quando coloca os dedos na tomada. Seu relógio de pulso marcava a mesma hora de seu radio relógio, mostrando agora oito e trinta e sete da manha.
Pulou da cama e correu para a porta de madeira da sacada de seu quarto, destrancou-a e se surpreendeu quando a abriu, olhou para o céu e o viu escuro como a mais escura noite sem luar. Olhava para o céu e logo para seu relógio de pulso em suas mãos parecendo não acreditar. À noite ou seria dia? Continuava gelada e triste como na noite anterior antes de ele adormecer. O semáforo de apenas duas vias que se encontrava logo à frente de sua sacada piscava suas luzes amarelas indicando que estava inoperante, a cidade parecia estar deserta como se fosse somente dele, todas as luzes continuavam acesas aguardando a chegada do dia que parecia não clarear, um leve vento gelado arrastava alguns papeis que dançavam no meio da rua e faziam com que as folhas das arvores chacoalhavam suavemente. A maioria das casas estava com as luzes apagadas e o único prédio que ficava na esquina da quadra a frente da sua, exibia suas luzes fortes no térreo e alguns apartamentos com suas sacadas acesas.
Gritou bem alto de sua sacada como se chamasse alguém, nenhuma resposta. Notou então que de dentro da sala de um dos apartamentos do oitavo andar do prédio uma televisão estava ligada e não parecia estar apenas com estática, alguém estava assistindo alguma coisa ou apenas vendo um DVD como ele na noite passada, gritou mais algumas vezes, agora encarando o apartamento. Nenhum movimento, apenas as sombras que se formavam com o televisor.
Christian já estava totalmente acordado e bem disposto depois da ótima noite de sono, não tinha nenhuma outra opção a não ser sair de sua casa e ver o que estava acontecendo em sua vizinhança, iria até o apartamento do oitavo andar do prédio se fosse preciso onde se parecia o único lugar com alguma atividade diferente diante de seus olhos. Colocou seu relógio agora marcando exatas nove horas no pulso, colocou seu melhor casaco, luvas e touca, jogou uma água quase congelada em seu rosto fazendo-o despertar mais ainda, pegou as chaves, desceu as escadas e seguiu em direção a porta que estava arrombada, mas toda a casa estava na mais perfeita ordem, resolveu vistoriá-la melhor depois de tentar entender o que estava acontecendo.
* * *

Parte 3
No exterior da casa o vento parecia estar um pouco mais forte – Muito frio para um dos primeiros dias do inverno – Dizia em voz alta como se estivesse falando com alguém. Ali embaixo, no portão de sua casa a cidade parecia estar ainda mais vazia. Christian deu mais uma olhada em toda sua volta antes de começar a dar seus primeiros passos, fitou também o apartamento do oitavo andar onde o televisor ainda estava como anteriormente. Resolveu começar a andar para a direita de sua casa onde se encontrava um maior número de casas, começou então a caminhar olhando para os desenhos da calçada que se parecia com setas indicando a direção. A rua do prédio a sua esquerda, que terminava praticamente na frente de sua casa estava ficando pra traz, pensava em retornar ao prédio depois caso não encontrasse nada pelas casas, mesmo assim olhava para ele, pois suas luzes fortes eram acolhedoras naquela noite gelada.
Christian de súbito sentiu um cheiro podre no ar e de imediato tirou os olhos do prédio e encarou a casa que estava a sua direita girando apenas sua cabeça de lado. Esta não possuía portões, com a sala diretamente na calçada lembrando casas antigas que foram construídas na década de cinqüenta após a guerra, a porta principal estava destrancada, entrou sem bater e sem falar nenhuma palavra, uma luz muito fraca, imprópria para aquele ambiente iluminava-o. Nesta sala apenas uma televisão de aparência antiga e um sofá de três lugares com o canto rasgado. Um corredor minúsculo parecia levar até a cozinha e no meio deste um quarto, de onde parecia vir o cheiro podre que estava sentindo desde lá de fora. A casa estava sombria como a noite, procurou o disjuntor, mas antes de tentar apertá-lo observou os fios pendurados segurando um bocal sem nenhuma lâmpada no corredor e sabia que seria em vão acioná-lo. Seguiu então em direção ao quarto, o cheiro ficava mais forte fazendo-o soltar algumas caretas de nojo, empurrou vagarosamente à porta que estava destrancada e um ar quente e fétido o fez dar um passo para traz, na mesma passada voltou e apertou o interruptor. Visualizou o corpo inchado de um velho esticado sobre uma cama, soltando um tipo de líquido amarelo que em partes atravessavam a lateral da cama e pingavam ao chão, estava próximo de sua decomposição. Christian soltou algumas gorfadas procurando involuntariamente o vômito correndo desesperadamente até a rua, parando agachado frente ao prédio. Perguntava-se novamente o que poderia estar acontecendo e quanto tempo aquele velho deverias estar ali sem que ninguém tivesse percebido, muitas perguntas sem resposta. Antes que pudesse enlouquecer, levantou-se e correu sem pensar em mais nada em direção ao prédio onde era o único lugar que talvez pudesse encontrar alguém, seus portões de alumínio baixo imitando os prédios de praias não dificultou sua entrada. Só tinha em mente chegar até o oitavo andar, atravessou a porta principal de vidro, as escadarias estavam logo à frente, mas percebeu que o elevador estava no térreo no final do corredor, resolveu então deixar elas de lado, atravessou o corredor, apertou o botão ao lado as portas se abriram, entrou e apertou o botão oito à porta se fechou.

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